Os Muckrakers: quando a imprensa norte-americana era viva

 

Nos EUA, a “idade do ouro” do jornalismo se associa ao nome de “muckraking”, expressão que conjuga as palavras “turfa” (muck) e “ancinho” (rake). A caneta, como ancinho, revolvia a turfa aglomerada na base da escala social pelas malfeitorias dos piratas da alta sociedade

Serge Halimi

Cavem onde vamos lhes dizer! Em 1990, a imprensa norte-americana havia “passado ao largo do escândalo das cadernetas de poupança, a fraude do dinheiro público mais custosa de toda a história dos Estados Unidos1”. Alguns meses mais tarde, na época da Guerra do Golfo, ela fez soar todos os cobres de mentiras militares cozidas em fogo lento nas cozinhas do Pentágono. Cavem onde vamos lhes dizer!

Em 2000, a imprensa norte-americana confirmava sua cegueira cantando loas às empresas desregulamentadas como a Enron. Três anos mais tarde, no decorrer da invasão do Iraque, ela se recuperou e se tornou extra-lúcida agitando o guizo de “armas de destruição de massa2” impossíveis de se encontrar. Parcialidade diante das prevaricações dos poderosos, boatos para confortar os projetos do poder: eis aí o jornalismo contemporâneo!

A caneta contra o “paraíso da rapina”
Outrora os jornalistas sabiam escrever, apurar. Fazer algo mais que recopiar os comunicados polidos pelas empresas e os fax que lhes enviam juízes de instrução e policiais

“Quando um cachorro morde um homem, o que acontece todos os dias, não se trata de uma informação. Em contrapartida, se um homem morde um cachorro, lá está a informação”. Este preceito de “bom senso” foi repisado por todas as escolas de jornalismo. No entanto, a imprensa o pratica desigualmente. O calor no verão, os engarrafamentos no fim-de-semana, a neve no inverno nunca lotaram tanto as antenas e as ondas. Em contrapartida, a vida ordinária das pessoas ordinárias, o quotidiano de sua exploração e de seus combates desapareceram3.

Nem sempre foi o caso. Outrora, nesses assuntos, os jornalistas sabiam escrever, apurar. Fazer algo mais que recopiar os comunicados polidos pelas empresas e os fax que lhes enviam juízes de instrução e policiais. Nos Estados Unidos, associa-se esta “idade do ouro” ao nome de “muckraking”, uma expressão que conjuga as palavras “turfa” (muck) e “ancinho” (rake). A caneta fazia as vezes de ancinho; ele revolvia a turfa aglomerada na base da escala social pelas malfeitorias dos piratas distintos da alta sociedade. A caneta se atinha aos mestres, não àqueles que lhes resistiam. Este gênero de jornalismo tinha muito trabalho a fazer num país que Henry James qualificava, há um século, de “gigantesco paraíso da rapina, invadido por todas as variedades de plantas venenosas que engendram a paixão e o dinheiro”. Cem anos, o tempo passa depressa.

Os trustes atrás dos trens
O jornalismo mucraker tinha muito trabalho a fazer num país que Henry James qualificava, há um século, de “gigantesco paraíso da rapina”

Um jornalista, Ray Stannard Baker se interessou então pelos trens. Eles, no entanto, chegam na hora. Mas atrás dos trens, há os trustes. Em dezembro de 1905, eles são objeto de uma pesquisa em cinco fases que sublinha seu poder exorbitante. As companhias de estradas de ferro pertenciam freqüentemente a bancos de Nova York, a grandes famílias, a “barões ladrões”, aos Morgan, aos Rockefeller. Na época, quase tudo dependia da localização das estações e das tarifas de frete: os preços dos produtos, o nascimento e a prosperidade das cidades (ler box).

As companhias podem favorecer as empresas, arruinar outras, atar alianças entre elas para melhor aumentar as tarifas, assalariar os eleitos a fim de conseguir concessões e subvenções, especular no plano imobiliário, traficar seus lucros. Tudo sem perigo. Ao lado delas, o Estado é um anão. Ele cabe em seu bolso. Descrevendo com belas letras, pedagógica e politicamente, a gangrena da suspeita que rói uma indústria, o enfraquecimento de um universo onde a “palavra de um homem” valia alguma coisa, Ray Stannard Baker concluiu: “Certamente, um sistema que produz tanta desonestidade é mau de cabo a rabo4”. Ele expressa aí uma opinião, ele não usa subterfúgios, ele toma partido, ele se bate.

A ameaça do socialismo

No ano seguinte, uma lei regulamenta os transportes ferroviários. O presidente Teddy Roosevelt fez o sacrifício impondo-o a industriais, obtusos demais para compreender que ele os protege do pior: “Eles pensam a curto prazo, se não compreendem que se opor a esta lei é aumentar a pressão em favor de uma nacionalização das estradas de ferro5”. Porque o socialismo ia de vento em popa. Ao menos tanto quanto as investigações de um jornalismo vivo, e o medo de uma revolução pressiona os dominantes a conceder de mau grado à democracia alguns ouropéis de um poder até lá não partilhado.

Quando ele expõe o sofrimento imposto às crianças, um jornalista se arrisca cair no sentimentalismo barato. Mas o autor dos artigos publicados sobre este tema em 1906 no Cosmopolitan, Edwin Markham, é antes de tudo mestre-escola e poeta. Inspirado por uma pintura de Jean-François Millet, O Homem com a Enxada, ele se dispõe a pesquisar sobre estes futuros adultos que já trabalham, às vezes, 14 horas por dia. Entre 1880 e 1900, o fenômeno se multiplicou por seis: a indústria está em plena ascensão, todas as mãos são utilizáveis. As crianças crescem então no meio dos “gritos de ogro da usina”, “ensurdecidos por um eterno Niágara de máquinas”.

Crianças sem repouso nem brinquedo
Por que não incluir na lista dos novos ogros do social os jornalistas que avalizam cada “reforma”, ou seja, cada regressão, invocando o “custo do trabalho”, a “globalização

Markham pergunta: “Por que eles não conhecem o repouso, nem o brinquedo, nem a educação, nada além do sombrio trituramento da existência?”. Estaríamos todos nus e trêmulos? Não, jamais nossos hangares regurgitaram fuligem e ferro a este ponto”. Então? Então, “vários capitalistas da Nova Inglaterra mudaram para o Sul suas máquinas e seus ateliês para estarem mais perto dos campos de algodão, dos cursos d’água e também – dá vergonha dizer – do trabalho barato executado pelos dedos de bebê. A Carolina do Sul tece o algodão para que o Masschussetts possa trazer a soja”.

Um século mais tarde, esta geografia mudou. As deslocalizações são transnacionais. Para a Nike, claro, mas também para a Peugeot, a Saint-Gobain, General Electric, as maquiladoras6. Quer-se teleoperadores anglófonos, instalam-nos na Índia. Prefere-se que sejam francófonos, bom dia Senegal – esperando encontrar mais baratos em outros lugares. Recorre-se também aos imigrantes cuja clandestinidade vale passaporte para a super-exploração. Aos detidos, que reservam as viagens dos outros.

O chicote secular
Os jornalistas se mostram tão mais preocupados apenas com as classes médias superiores que a imprensa popular e a inprensa revolucionária não existem mais

Edwin Markham continuava: “A usina, nos dizem, deve resgatar um lucro sem o qual os proprietários vão protestar. Atormentado por seu conselho administrativo, o patrão repreende então o capataz que se volta contra seus operários. É longo esse chicote cuja extremidade estria as costas das crianças. Devemos nos surpreender porque as ações das usinas de algodão chegam a 25%, 35%, às vezes 50% por ano? Sim, meus mestres, isto paga o ato de moer as costas dos pequenos a pó de dividendos. ‘Tirem-nos o trabalho das crianças e nós iremos para outro lugar’, é a ameaça habitual dos proprietários da usina e de seus lobistas nos corredores dos parlamentos. E, ai de nós, vivemo
s numa civilização onde este gênero de chantagem acontece”.

Este texto tem 100 anos, mas como não pensar em lê-lo aos nossos políticos neoliberais, aos advogados atuais de uma redução de salários destinada a curar uma imaginária “preferência francesa pelo desemprego” (Alain Minc). E por que não incluir na lista dos novos ogros do social os jornalistas que avalizam cada “reforma”, ou seja, cada regressão, invocando o desenvolvimento, o “custo do trabalho”, a concorrência, a “globalização” 7.

A invisibilidade dos pobres

Muckrakers remete quase sempre a Upton Sinclair e à sua pesquisa de 1906 sobre as infectas condições de trabalho nos abatedouros de Chicago, nos textos de Jack London sobre O povo de baixo, nos artigos de John Seinbeck no San Francisco Examiner, sobre os campos de migrantes da Califórnia. Abatedouros, usinas e “povo de baixo” deixaram desde então os bairros onde vivem os jornalistas. E estes últimos se mostram tão mais preocupados apenas com as classes médias superiores que a imprensa popular e a imprensa revolucionária não existem mais e que a publicidade de seus periódicos tem em foco lucros confortáveis. Em 1962, em A outra América, Michael Harrington já levantava que “uma das coisas mais importantes em relação aos pobres é que eles são invisíveis”. As mídias servem também para isso.

Quando Steinbeck relatava as tragédias individuais, ele sublinhava que elas reconstituem uma história coletiva: “Certos migrantes se saíram um pouco melhor, outros, bem mal. Se homens roubam, se neles cresce o ódio pelas pessoas bem vestidas e satisfeitas, inútil procurar explicá-lo por sua origem ou por um defeito de seu caráter”. Hoje, daríamos de ombros, fustigaríamos as “desculpas sociológicas” de um jornalismo de luta de classes. Mas com o que mais se parecia a realidade norte-americana, em outubro de 1934, quando o New York Post publicou as declarações de um braço direito do patronato que, depois de ter fornecido 6 mil capangas a uma companhia de estradas de ferro, hipocritamente explicava: “Nós dispomos de 2.500 fuzis e muita munição. Suprimir as greves é, no entanto, apenas uma das nossas especialidades. Nos concentramos no momento sobre a prevenção. Nosso trabalho é restabelecer a confiança dos operários conservadores e desacreditar os radicais e os agitadores”. Este último trabalho é ainda necessário, mas logo os jornalistas se encarregarão dele.

As fraudes de Rockfeller
Quem inspirará, como Ida Tarbell, um jornalismo, que investiga os conglomerados, como em 1900, já que as Standard Oil da nossa época são os grupos midiáticos que nos empregam?

O proxenetismo de massa sob a sombra da estátua da Liberdade fazia parte dos ingredientes da turfa norte-americana. Em 1909, uma investigação de George Kibbe Turner sobre o assunto revela sua intriga já no título. É verdade que ele é um tanto longo: “As filhas dos pobres: uma história simples do desenvolvimento de Nova York como centro mundial do tráfico de mulheres com o concurso da municipalidade”… Uma comissão de investigação foi designada. John D. Rockefeller Jr fazia parte dela. A caridade, o mecenato, a ética vão então recuperar a imagem deste industrial cuja cautela e a avidez haviam sido dissecadas numa outra reportagem.

Foi sem dúvida a investigação do Watergate da época, uma das séries de matérias de “investigação” mais conhecidas de toda a era do muckraking. Impõe-se aos atuais jornalistas escrever cada vez menos. Ida Tarbell publicou 18 matérias sobre “A história da Standard Oil”. O primeiro, em novembro de 1902, o último… dois anos mais tarde. Ela concluía assim sua proposta: “Rockefeller atingiu seus fins recorrendo à força e à fraude. Em vez de tais métodos suscitarem o desprezo, eles são cada vez mais admirados. É aliás lógico: celebrem o sucesso nos negócios e os homens que obtêm sucesso, como aqueles da Standard Oil, se tornam heróis nacionais”.

Há dois anos, a imprensa francesa louvava Michel Bon, Jean-Marie Messier, sem esquecer as privatizações e as fusões bancárias que iriam lhe trazer carroças de publicidade financeira8. No mesmo instante, a Columbia Journalism Review questionava a imprensa norte-americana: “Quem fará no momento o papel de Ida Tarbell, inspirando um jornalismo que investiga os novos conglomerados, como em 1900? Quem o fará já que as Standard Oil da nossa época são os grupos midiáticos que nos empregam? 9”.

(Trad.: Fabio de Castro)

1 – Ellen Hume, “Why the Press Blew The S&L Scandal”, The New York Times, 24 mai o de 1990.
2 – O New York Times se distinguiu na matéria. Ler Russ Baker, “‘Scoops’ and Truth at the Times”, The Nation, 23 de junho de 2003.
3 – Na França, apenas no ano de 2001, 257 assalariados foram mortos e 9 829 outros foram mutilados a serviço das empresas de construção e obras públicas, sendo que, encabeçando a lista, estava o proprietário da TF1, Bouygues. O Le Monde dedicou a isso apenas uma matéria. Entre 1996 e 2001, a construção do trem de alta velocidade do Mediterrâneo custou a vida de 10 operários. Durante estes cinco anos, nem a TF1, nem o Figaro, nem o Monde, nem o Nouvel Observateur publicaram nenhuma reportagem a esse respeito. A construção do túnel sob a Mancha provocou nove mortes, mas nenhuma evocação nos jornais da France 2 (Fonte: “La Guerre sociale”, PLPL n°13.)
4 – Judith and William Serrin, “Muckraking ! The Journalism That Changed America”, New Press, 2002, p. 157.. Esta obra publica numerosos extratos das maiores investigações do «jornalismo que mudou a América». Salvo em indicação contrária, as citações que se seguem provêm desta obra.
5 – In Howard Zinn, Histoire populaire des Etats-Unis, Agone, Marseilha, 2002, p. 399.
6 – Usinas que contratam por empreitada para o lucro dos grandes grupos, instalados no Caribe, no México e na América Central.
7 – Em 1993, o atual ministro delegado às liberdades locias, Patrick Devedjian, explicava num relatório parlamentar: “Não se pode ao mesmo tempo deplorar a miséria do terceiro mundo e proibi-lo de se desenvolver utilizando essa própria miséria como um trunfo». Ele estava apenas retomando ali um ponto de vista corrente na imprensa econômica. Ler «Crianças reis », Le Monde diplomatique, janeiro de 1995. Segundo o último relatório da Organização Internacional do Trabalho, 246 milhões de crianças trabalham no mundo, dos quis 73 milhões têm menos de 10 anos.
8 – Os grandes bancos não estão apenas no capital das grandes mídias. A Express anunciou no dia 10 de julho de 2003 que Jean Peyrelevade, PDG do Crédit Lyonnais, acabava de integrar seu conselho de vigilância que « tem por missão garantir a independência do jornal ».
9 – Columbia Journalism Review, Nova York, maio-junho de 2001.

 

Artigo publicado originalmente no Le Monde Diplomatique – 2003

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