A SITUAÇÃO DA CULTURA EM SANTO ANDRÉ

 

Nos últimos dois anos Santo André passou por uma mudança, para alguns, extrema, para outros não, em sua administração central. Trocou-se um governo que, na teoria, era de orientação popular por outro tido por conservador. Essa troca de poder trouxe várias mudanças na cidade, mudanças pra pior na opinião de muitas pessoas; principalmente para o maior partido de oposição da cidade.

Uma coisa que não foi alterada nesses anos foi a cultura. Os investimentos continuaram parcos e as realizações permaneceram mínimas. Na área da música houve apenas uma alteração cosmética,: a qualidade das atrações oferecidas. Se no governo anterior as atrações eram geralmente artistas e bandas consideradas de melhor qualidade, no atual governo borbulha uma agenda de atrações musicais de gosto discutíveis.

Não se trata aqui de discutir esse ou aquele gosto musical e sim um ponto de vista comum ás duas gestões: a prioridade para artistas de fora em detrimento aos artistas locais, que muitas vezes precisaram sair dos limites da cidade para conseguirem melhores oportunidades.

Em outras áreas artísticas a situação não é muito diferente, as vezes é até mais grave; como no caso do teatro. Um dos dois equipamentos públicos disponíveis para essa arte na cidade (Teatro Municipal) é quase totalmente ocupado por atrações comerciais, de grupos de outros lugares. Nesse caso não se trata de condenar as peças comerciais e sim pensar novamente na questão das oportunidades aos grupos locais e também na demanda por equipamentos de teatro na cidade.

Porque regiões distantes da cidade como a Vila Luzita (reduto do atual prefeito) não possuem um teatro para atender á população local? Fica a pergunta para se pensar em algo bem simples: descentralizar os equipamentos de cultura da cidade.

Ainda sobre o uso dos equipamentos de cultura da cidade, dois casos emblemáticos: Cine-teatro Carlos Gomes e teatro Conchita de Morais. O primeiro está abandonado desde a antiga gestão, sendo sempre alvo de promessas que nunca se concretizam. O segundo, por sua vez, é um caso único, uma vez que abriga os projetos relacionados á Escola Livre de Teatro. Porém, isso não impediria de forma alguma uma ampliação no uso desse teatro.

Em tempo, o Conchita vive um isolamento; em parte ocasionado por uma concepção interna de parte dos alunos da Escola Livre de Teatro e em parte ocasionada pela Prefeitura. Sobre isso, cabe pensar: em que medida o movimento dos alunos dessa escola, no ano passado, contribuiu para uma espécie de “boicote” da prefeitura com esse teatro?

Outra questão que vem sendo mal conduzida desde a gestão passada é o alcance das oficinas culturais da cidade que passam por um discreto, porém preocupante, processo de redução. Podemos citar como exemplo a EMIA (Escola Municipal de Iniciação Artística). Ainda na outra gestão esse projeto funcionava em dois espaços da cidade (Chácara Pignatary e Parque Regional). Com o tempo, passou a funcionar somente no segundo espaço, uma vez que o primeiro ficou destinado á Escola Livre de Cinema e Vídeo. Depois disso, veio uma aparente descentralização (leia-se pulverização) do projeto para os CESAS da cidade, que ficou conhecido como EMIACidade.

Essa medida não descentralizou as atividades culturais da cidade, uma vez que o número de pessoas atendidas não se ampliou significativamente. É possível dizer até que essa saída dos parques para os CESAS enfraqueceu o projeto como um todo.

Após a criação do EMIACidade o projeto de Iniciação Artística ainda sofreu outro golpe com o fechamento do casarão do Parque Regional para reformas, que só foram concluídas no primeiro semestre da nova gestão.

E mais: se fosse realizada uma pesquisa a respeito da EMIA na cidade, a maioria da população dirá que sequer ouviu falar do projeto, o que denota outra falha que abrange mais a atual do que a antiga gestão: a falta de divulgação dos eventos e projetos, não só os relacionados á EMIA, mas á todos os outros também.

Diante de todos esses fatos, é possível dizer que por mais que as gestões antigas e a atual pareçam diferentes em alguns aspectos, nelas prevalece à idéia de que cultura é algo secundário, que deve continuar a ser tratada como tal, uma vez que não traz votos (Link: http://www.dgabc.com.br/News/15402/cultura-nao-da-voto-diz-cientista-politico.aspx)

Francisco Guilherme

Poeta e ator andreense

1 comment to A SITUAÇÃO DA ARTE E CULTURA EM SANTO ANDRÉ

  • O artigo poderia tentar aprofundar mais a questão de porque Cultura não dá voto. Por que será? Como fala Teixeira Coelho, se as pessoas não se apropriarem de um projeto cultural, ele não vinga mesmo. A situação da Cultura em Santo André, infelizmente não se limita às suas fronteiras, ela é regional. O abandono ocorre em todas as sete cidades do Grande ABC.
    simplesmente inexiste uma política cultura nas cidades, ficando a Cultura não só a terceiro plano, mas deposito de funcionários loucos e problemáticos.

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