2. Reforma Agrária e Urbana
A re-estruturação produtiva neoliberal causou grande impacto sobre as formas de ocupação da terra no Brasil e, em especial, em São Paulo, o centro produtivo e financeiro do país. Todo território que ainda não estava plenamente mercantilizado, passou a ser incorporado à lógica do capital.
De um lado, o campo ampliou seu caráter latifundiário e monocultor, agora essencial para a consolidação do modelo agroexportador do crescimento brasileiro. Na divisão internacional da globalização neoliberal, cabe ao Brasil garantir a produção de grãos, carne, madeira, minérios, celulose e álcool. Essa ampliação do caráter latifundiário e monocultor pode ser percebida nos dados a seguir, que apontam a evolução das quatro principais culturas em nosso estado.
De acordo com o Censo Agrícola de 2006, são 9,5 milhões de hectares de terra para a agricultura em São Paulo. Seguindo a estrutura do agronegócio, o estado concentra sua produção em álcool com mais de 4,5 milhões de hectares de cana-de-açúcar; milho e laranja com 1 milhão e 0,6 milhão de hectares respectivamente. Logo atrás aparece a soja com 0,5 milhão de hectares destinados a sua produção. Ou seja, cerca de 80% do território agriculturável do estado é destinado prioritariamente à produção agroexportadora.
A característica dessa produção é a concentração. O Censo Agropecuário de 2006, recentemente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE[1] comprova a manutenção da inaceitável desigualdade na distribuição da terra no Brasil. Os dados confirmam a estabilidade do nível da concentração fundiária em relação aos dois últimos censos (1985 e 1996). O indicador que comprova este fato é o Índice de Gini para a concentração fundiária, cujos valores podem variar entre zero (igualdade absoluta) e um (concentração absoluta). Pois bem, considerando-se os três últimos censos, o referido índice para o país apresenta os seguintes valores: 0,857 (censo de 1985), 0,856 (1995) e 0,854 (2006). Três valores expressivamente altos.
No Estado de São Paulo em 2006, 2,3% dos proprietários detinham 63% das terras agriculturáveis, em estabelecimentos considerados “muito grandes”, com mais de 1400 hectares cada um. Enquanto isso, os restantes 187.209 produtores rurais ficavam apenas com 37% das terras.
O período censitário aqui referido limita-se a 2006, no entanto a afirmativa de que a concentração persiste até os dias atuais é evidente. Considerando-se os últimos três anos, não se verifica qualquer fato que indique reversão desta tendência em favor dos pobres do campo. Pelo contrário, eles apontam para o crescimento da concentração em áreas de expansão das monoculturas.
No Estado de São Paulo[2] houve crescimento expressivo da lavoura da cana-de-açúcar com expansão de 90,5% da área de plantio entre 2000 e 2008 (segundo o Instituto de Economia Agrícola de SP) e alteração significativa do índice de Gini — de 0,758 no censo de 1996 para 0,804 no censo de 2006. O que equivale a uma concentração de terras da ordem de 6,1% na década. O grande beneficiário continua a ser o latifúndio travestido de agronegócio com forte presença e associação com as grandes companhias transnacionais.
O outro lado dessa concentração é sentida nas cidades. Segundo dados do DIEESE, o desemprego no mês de maio de 2010 na região metropolitana de São Paulo é de mais de 1,4 milhões de pessoas, que representam praticamente 15% da PEA (População Economicamente Ativa), de 10,7 milhões de trabalhadores. A falta de acesso ao trabalho leva ao aumento significativo das favelas e de periferias precariamente atendidas pelos serviços públicos, com impactos para a degradação social e ambiental – mais de 50% das favelas na cidade de São Paulo ficam às margens de reservatórios de abastecimento de água.
A política habitacional implementada para as cidades no estado segue na contramão de uma solução efetiva. A intensificação de despejos de favelas, principalmente aquelas localizadas em áreas centrais, tem como objetivo não a solução de um problema habitacional, mas a utilização das terras como fonte de especulação imobiliária. O programa federal de construção de moradias, assim como a política estadual que se vale de órgãos públicos e companhias sucateadas e descapitalizadas, mostram a incapacidade do poder público de romper com os pesados interesses que se abrigam no ramo da construção imobiliária. As inscrições ao governo federal superaram em quase 50 vezes a oferta para a população que recebe até 3 salários mínimos e o Governo Estadual, que se financia nesta área através da arrecadação de 1% do ICMS, não abrigam no horizonte a solução deste problema do povo paulista e brasileiro.
Em resumo, a lógica do lucro ao capital prevalece no campo e na cidade, disputando terras e expulsando a população dos espaços de direito econômico e social. O programa do PSOL inverte essas prioridades e afirma a necessidade de uma reforma agrária e urbana que ressignifiquem o território e coloquem a sustentabilidade social e ambiental no centro da ocupação das terras no Estado de São Paulo, lutando contra a hegemonia do agronegócio no campo e da especulação imobiliária nas cidades.
Nesse sentido, os eixos fundamentais do PSOL nesta área serão:
- Regulação das atividades das monoculturas que caracterizam o agronegócio no Brasil e no Estado de São Paulo – Área Reformada ou ZONEAMENTO SOCIO-AGRO-AMBIENTAL.
- Investimentos públicos em programas dirigidos aos agricultores mais pobres, que devem ser protegidos.
- Criação de uma política estadual de combate ao uso dos agrotóxicos, incentivando práticas sustentáveis de manejo da terra e de produção de alimentos saudáveis.
- Atualização dos índices de produtividade e efetivação dos demais aspectos da função social — ambiental e trabalhista.
- Atuação na luta pelo estabelecimento legal do limite máximo da propriedade.
- Retomada do papel do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (ITESP) na análise de terras griladas e arrecadação de áreas já tidas como devolutas no estado, sobretudo no Pontal do Paranapanema onde segundo o próprio ITESP existem cerca de 500 mil hectares já julgados como terras devolutas. Porém o governo paulista utilizou apenas 20% dessas terras para assentamentos e tenta legalizar o restante através de projeto de lei.
- Investimentos nos institutos de pesquisa do Estado de São Paulo para garantia de seus papéis estratégicos no desenvolvimento de pesquisa, ciência e tecnologia na área agrícola. Incentivar a pesquisa voltada para uma agricultura ecologicamente sustentável e voltada para pequenas e médias propriedades.
- Combate ao cultivo com sementes transgênicas, mas preservando a possibilidade de pesquisas nessa área.
- Realização da reforma urbana com ocupação de edifícios desocupados e combate à especulação imobiliária com penalização da manutenção de imóveis desocupados e da não execução do plano de ocupação de moradias vazias.
- Execução plena do artigo 186 da Constituição Estadual e os dispositivos do Estatuto da Cidade, responsabilizando o poder público pelo cumprimento da função social da propriedade, destinando à reforma urbana e agrária aqueles em falta com a lei.
- Estabelecimento de um sistema de transporte prioritariamente público, com moratória da expansão viária nas cidades e redirecionamento dos investimentos para o transporte público coletivo.
- Desenvolvimento de planejamento do transporte no estado, priorizando o transporte ferroviário reabilitando os antigos ramais.
[1] No dia 06/11/2009, mais de um mês após a primeira divulgação, o jornal Folha de São Paulo veiculou declaração do IBGE que afirma ter havido erro na estimativa do Índice de Gini para o país como um todo. O valor anunciado anteriormente 0,872 deveria ser substituído por 0,854. Considerando-se correta está última estimativa, implica em concluir, ao contrário do anunciado em 30 de setembro, que não houve agravamento da concentração de terras no período intercensitário. De qualquer forma, a concentração de terras foi mantida em nível escandalosamente alto. Esperemos que o IBGE tenha mais cuidado em tratar seus indicadores, em especial, aqueles de grande importância.
[2] O IBGE não declarou erros nos cálculos do índice de Gini para os estados.
Paulo Bufalo é professor, membro da executiva Estadual do PSOL, foi candidato a governador em 2010.