Cultura
Vivemos um momento histórico do surgimento e difusão de tecnologias da informação que permitem dois grandes avanços em termos culturais: o barateamento da produção cultural e o aumento da capacidade de acesso aos bens culturais. No entanto, por conta de um modelo de remuneração viciado e anacrônico (direitos autorais patrimoniais e patentes), a maioria da população continua sem acesso ao saber, enquanto, contraditoriamente, computadores possibilitam a conexão da humanidade em uma rede global, gerando novas capacidades produtivas e criativas que não são plenamente aproveitadas. É um modelo de disseminação cultural que nos mantém como espectadores passivos diante da televisão, quando poderíamos, através da digitalização, criar e difundir ideias, imagens e pensamentos.
Mas a potencialidade da conjuntura atual não se restringe à difusão por meio da digitalização. O barateamento das tecnologias de produção cultural também facilita e reduz o custo a implementação de equipamentos públicos de produção cultural para as mais diversas linguagens artísticas, do teatro à produção audiovisual.
Mas o apoio e o financiamento da cultura no estado não podem estar vinculados ao direcionamento mercadológico e meritocrático de conteúdos. A diversidade e a abrangência que o desenvolvimento cultural livre exige depende de um ambiente em que haja autonomia, acesso universal e livre manifestação, sem direcionamentos e restrições mercantis, sem a vinculação com a sobrevivência material do autor e sem qualquer outra forma de controle externo. O estado deve ser um agente democratizador da produção de conhecimento e não concentrador.
Infelizmente, essa não tem sido a atitude da maioria dos programas de financiamento cultural no Brasil. Nacionalmente, parte significativa do orçamento para a cultura está vinculada à Lei Rounet e depende da aprovação dos setores de marketing das empresas privadas para serem implementados. Nos níveis estaduais e municipais algumas leis de fomento possuem formatos e diretrizes de financiamento mais amplos, mas um alcance bastante reduzido devido a seus limites orçamentários.
Em 2009, o Estado de São Paulo disponibilizou apenas R$123 milhões para a formação cultural, um volume de recursos correspondente a 0,1% da receita líquida disponível. Além do reduzido volume de recursos, sua distribuição é bastante concentrada nas regiões metropolitanas, restringindo o acesso cultural às regiões mais remotas do território.
O programa do PSOL quer transformar o olhar sobre a cultura, colocando-a como prioridade orçamentária e promovendo a livre produção e o amplo acesso às atividades artísticas e culturais.
Com esse objetivo, defendemos:
- Programas de financiamento da cultura livre, não vinculados à mecanismos de renúncia fiscal, que garantam a emancipação da produção cultural em relação à lógica de mercado, privilegiando o fomento ao livre funcionamento de grupos culturais e não à entrega de produtos específicos, como livros, apresentações ou shows.
- Controle social do orçamento de fomento à cultura, através da criação de conselhos não estatais de seleção de beneficiários, como uma forma de mitigar o controle político sobre a seleção cultural e permitir maior diversidade na produção cultural com apoio estatal.
- Ampliação do acesso à internet e de sua utilização como ferramenta cultural, incentivando redes de acesso abertas com desconto em impostos e tributos, conexões nas escolas à internet, maiores canais de comunicação com a prefeitura pela internet.
- Descentralização das aparelhagens culturais, focando as construções no interior do estado (centros culturais, salas de exibição etc.) e nas periferias das grandes cidades. É preciso valorizar as produções locais, encontrando um equilíbrio na escolha do repertório, que deve incluir produções de caráter mais claramente popular e trabalhos mais investigativos, além de tentar abranger diversos gêneros e formas artísticas.
- Incentivo às atividades de longa duração, evitando limitar a política cultural às produções e eventos ocasionais, que muitas vezes absorvem recursos importantes do orçamento da cultura, com escassos resultados à médio e longo prazo. Entre essas atividades, propomos a organização de oficinas culturais, ciclos de palestras, publicações etc. Estas atividades podem ser viabilizadas com relativamente poucos recursos e produzem conseqüências mais duradouras.
- Estimular a ocupação democrática e plural de espaços culturais administrados pelo Estado de São Paulo.
- Viabilizar a publicação de livros (peças teatrais, poesias, ensaios etc.) através da Imprensa Oficial ou de parcerias.
- Elaboração de projetos voltados para a criação e formação de público, entre eles: “Criança no teatro”, garantindo o acesso de alunos do ensino fundamental aos espetáculos infantis; e “Trabalhador no teatro”, projeto para estimular os trabalhadores a assistir espetáculos de qualidade (isso pode ser feito com uma série de iniciativas, como a diminuição do preço dos ingressos, a circulação de informações e a organização de transporte gratuito).
- Defesa de ações culturais inclusivas, reconhecendo a importância das ações afirmativas defendidas pelos movimentos de mulheres, negros, indígenas, quilombolas, entre outros. Garantir condições de acesso aos portadores de deficiências.
- Defesa de um aumento significativo da participação da cultura no orçamento do estado.
Paulo Bufalo é professor, membro da executiva Estadual do PSOL, foi candidato a governador em 2010.