O exemplo de Mujica

Cid Benjamin

O ex-presidente e senador do Uruguai José Mujica durante encontro com estudantes na concha acústica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no campus do Maracanã (Fernando Frazão/Agência Brasil)

José Mujica durante encontro com estudantes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maracanã (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

O ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica, hoje senador, conseguiu algo que político brasileiro algum conseguiria hoje: mobilizou cinco mil jovens na Uerj, para escutá-lo falar de política. O encontro foi um pedido do próprio Mujica, que, ao receber o convite para vir ao Rio, condicionou a aceitação a que fosse incluído na agenda um encontro com jovens.

Alguns dos presentes foram às lágrimas com suas palavras. E, note-se, Mujica não é um agitador de massas, alguém que empolga pela veemência. Ao contrário, sua figura lembra mais a de um avô carinhoso e, acima de tudo, humano e bom. Ele simplesmente expõe ideias. Seu carisma advém dessas ideias e da credibilidade que passa.

Fundador e ex-dirigente do movimento Tupamaros, Mujica participou de ações de guerrilha. Preso, foi um dos 111 tupamaros que, no dia 6 de setembro de 1971, fugiram do presídio de Punta Carreras, em Montevidéu, por um túnel.

Novamente preso, ficou 14 anos em mãos dos militares. Depois do período inicial de torturas, não foi julgado e, como outros oito dirigentes da organização, foi considerado “refém” pela ditadura uruguaia. Esta última anunciou publicamente que, se a guerrilha voltasse a fazer ações de envergadura, eles seriam assassinados. Esses presos eram mantidos sem contato com outros ou com o mundo exterior. Alguns deles, entre os quais Mujica, passaram anos não numa cela, mas no fundo de um poço seco. Ali dormiam, ali comiam, ali faziam suas necessidades. Usando uma roldana, era descida em um balde a comida. Em outro balde, subiam fezes e urina.

“Os militares resolveram nos deixar loucos”, escreveria posteriormente Maurício Rosencof, outro dos “reféns”, num livro em que conta a experiência.

Com o fim da ditadura, em 1985, houve uma anistia e os presos políticos foram libertados. Os Tupamaros abdicaram da luta armada e passaram a disputar eleições, integrando a Frente Ampla, ao lado de outras agremiações.

Mujica foi deputado e ministro, antes de se tornar presidente. Nunca mudou o estilo de vida. Ia para o palácio dirigindo seu fusquinha e continuava morando como antes, numa chácara na periferia de Montevidéu. Doava a maior parte do salário que recebia.

A admiração dos jovens por Mujica, demonstrada fartamente nos seus dias de pop star no Rio, se explica, em boa parte, por sua trajetória de vida. É alguém cuja integridade não pode ser posta em dúvida e cuja vida pessoal é absolutamente coerente com o que defende na vida pública.

Mujica nunca esteve preocupado em enriquecer, em prestar “consultorias”, em ter relações com empreiteiras ou em picaretagens do gênero. “Quem quiser enriquecer, que enriqueça, mas longe da política”, é uma de suas frases.

Como este modelo é coisa rara entre nós, chama a atenção.

Por isso, é forçoso reconhecer, o frisson que Mujica causa não só é consequência de suas indiscutíveis qualidades, mas também da comparação com a indigência política e moral de boa parte dos nossos “homens públicos”.

Esta é uma triste verdade.