Grécia: Centenas de milhares se unem à greve do setor público contra os brutais planos de austeridade

Andros Payiatsos, Xekinima (CIT Grécia)

altO ‘resgate’ da UE vem com impiedosas “condições rigorosas” – a resistência dos trabalhadores deve continuar!

Centenas de milhares de trabalhadores do setor público entraram em greve na Grécia, na quarta 10 de fevereiro, em um impressionante demonstração de força contra o draconiano pacote de cortes sociais do governo do social-democrata PASOK.

Estima-se que 75% dos trabalhadores do setor público participaram, subindo para 90% entre as maiores empresas do setor estatal. Duas manifestações de sindicalistas e trabalhadores também foram realizadas em Atenas, apesar da forte chuva, com um total de 15 mil, o que são grandes manifestações comparadas a protestos similares nos anos recentes, especialmente dadas as más condições climáticas.

Uma greve dos trabalhadores do setor privado chamada para 24 de fevereiro se tornará uma greve geral de 24 horas, já que a Confederação Sindical dos Trabalhadores Públicos (ADEDY) decidiu se unir a mobilização.

Há uma raiva generalizada e profunda contra os planos de ataques aos empregos, salários, condições de trabalho, aposentadoria e aumentos de impostos. As medidas de austeridade incluem um congelamento dos salários do setor público e sérios cortes nos bônus, que constituem uma grande parte da remuneração do setor público grego (algumas vezes 90% do salário oficial); pesados impostos sobre combustíveis, tabaco e álcool; substituição de apenas um em cada cinco dos empregados que deixam o serviço publico; aumento da idade de aposentadoria em dois anos, em média acima dos 65 anos (agora a idade formal de aposentadoria), dando “incentivos” aos trabalhadores para ficarem mais tempo no trabalho (incentivo significa reduzir o número de aposentadorias para que os trabalhadores sejam forçados a trabalhar por mais tempo). Jornalistas estrangeiros descreveram as principais marchas da última quarta como um “rio de fúria”. Um trabalhador comentou: “O que eles estão tentando fazer é roubar nossos direitos duramente conquistados, direitos como a jornada de oito horas e uma aposentadoria decente depois de toda uma vida de trabalho. Essa é uma crise que vai tornar os pobres ainda mais pobres e os ricos mais ricos. É totalmente injusto”. Mas o sentimento é misto, com alguns trabalhadores também expressando resignação e até desespero. Muitos também estão aturdidos pelo rápido desenvolvimento e profundidade da crise econômica grega. Os líderes da federação sindical ADEDY (dos empregados públicos), que chamaram a greve, dizem que se opõem ao brutal pacote de austeridade do governo, mas não apresentam um programa concreto para os trabalhadores derrotarem os ataques ou oferecer uma verdadeira alternativa aos cortes. Muitos ativistas experientes dizem que a greve foi chamada principalmente para “diminuir um pouco a pressão”.

Eleição do PASOK

Embora o governo do PASOK (‘Movimento Socialista Pan-helênico’) seja responsável pelo brutal plano de cortes, ainda tem cerca de 40% de apoio nas recentes pesquisas de opinião, comparado com a principal oposição, a Nova Democracia (ND), que está minguando em torno de 30%. Isso é exatamente o mesmo que os dois principais partidos do establishment receberam seis meses atrás, quando o PASOK substituiu o odiado governo de direita da ND. Os principais partidos de esquerda, o Partido Comunista e o SYRIZA, estão em torno de 7% e 4%, respectivamente.

Com a liderança do PASOK nas de pesquisas – em meio a uma profunda crise econômica, enormes planos de cortes e greves de protestos – pode ser explicada? A verdade é que a classe dominante grega teve muita sorte (ou precisa ao planejar eleições precoces) sobre a hora da saída da Nova Democracia do governo. Se a odiada ND de direita permanecesse no poder e anunciasse cortes similares ao PASOK, a situação na Grécia teria sido muito mais explosiva. Um governo da Nova Democracia presidindo os cortes no começo dos anos 1990 provocou enormes movimentos de massa e balançou a sociedade.

Ao invés disso, o atual governo do PASOK conseguiu parcialmente, até agora, pôr a culpa dos problemas econômicos do país no governo anterior da ND (que escondeu a verdadeira extensão das enormes dívidas da Grécia) e nas políticas da União Europeia (UE) e da eurozona (que estreitam as opções do PASOK para lidar com a crise), e nas ações predatórias dos especuladores de hedge fund que estão apostando no calote grego de suas dívidas.

O Primeiro Ministro George Papandreou diz que o PASOK não tem escolha a não ser relegar as promessas eleitorais a fim de enfrentar a dívida pública de 300 bilhões de euros da Grécia, comprometendo-se a cortar o déficit orçamentário de 12,7% para o “limite permitido de 3%” da eurozona até o fim de 2012.

O governo do PASOK também anunciou algumas medidas populistas contra os ricos, incluindo ataques na evasão de impostos, que é um enorme problema na Grécia, e declarando que o governo taxará mais os setores mais ricos da sociedade (por exemplo ele anunciou a taxação dos bônus de executivos de bancos em 90%). Estas políticas também é o limite máximo que as principais federações sindicais estão dispostas a ir no momento. Apenas o SYRIZA (coalizão da esquerda radical), dos dois principais partidos de esquerda, apresentou a demanda pela nacionalização dos bancos em crise e pela nacionalização ou renacionalização de partes do setor estatal da economia, sob controle e gestão dos trabalhadores. Contudo, essas demandas estão geralmente restritas a artigos de jornal e os líderes do SYRIZA não se referem a elas quando estão falando na televisão, por exemplo. Isso significa que a maioria dos trabalhadores não conhece quais demandas o SYRIZA está apresentando.

O “Partido Comunista” (PC) grego, ao contrário, que tem um apoio eleitoral maior do que o SYRIZA e uma base mais sólida na classe trabalhadora, usa uma fraseologia forte e “ousada” para dizer que os trabalhadores devem derrotar os ataques do governo, da UE e dos patrões. Mas o PC não explica como parar os ataques – não faz propostas concretas nem em relação às demandas políticas e de classe ou em relação de como as lutas devem se desenvolver. Ao mesmo tempo, o PC continua a aplicar sectárias táticas divisionistas, organizando manifestações separadas e afirmando que todos os outros (na esquerda e nos sindicatos), exceto o PC, são agentes da burguesia.

Ao contrário, os apoiadores do Xekinima (CIT na Grécia) apresenta claramente uma alternativa socialista à crise. O jornal do Xekinima que foi vendido nas manifestações de quarta em Atenas carregava manchetes e artigos que diziam aos trabalhadores para contra-atacar, “planejar uma série de greves gerais” para “Fazer os patrões pagarem!” e exigindo um “contra-ataque socialista por parte dos partidos de esquerda”, explicando que “os partidos de esquerda na Grécia enfrentam responsabilidades históricas”. Essas demandas encontraram uma resposta calorosa dos grevistas, mesmo nos casos dos trabalhadores que claramente se sentiam “cansados” e desiludidos.

O Xekinima também apresentou demandas públicas mais detalhadas, incluindo: não aos cortes nos salários, aos ataques às aposentadorias, não ao aumento da taxação indireta; parar a evasão de impostos pelos patrões; parar o pagamento da dívida, usar esse dinheiro para investimentos públicos, elevar os padrões de vida; fazer os patrões pagarem os 100 bilhões de euros roubados dos fundos de pensão dos trabalhadores; pelo controle e gestão dos trabalhadores para parar a corrupção endêmica no setor estatal e dos grandes negócios; e nacionalização de todas as companhias de utilidade púb
lica privatizadas e todas as estrategicamente importantes (setores chave) da economia.

“Resgate” da UE?

O anúncio feito pelo presidente da EU, Herman Von Rompuy, na quinta 11 de fevereiro, de que os líderes da UE chegaram a um acordo para “ajudar” a Grécia a enfrentar sua crise da dívida pode levar a esperanças temporárias e ilusões entre muitos trabalhadores gregos de que a crise pode ser superada e que talvez os piores cortes sejam evitados.

Contudo, a ação da UE não está sendo planejada de acordo com o interesse dos trabalhadores gregos ou de qualquer lugar da Europa. A UE teme que se a Grécia tiver permissão de dar um calote nas suas dívidas ou deixar a eurozona de 16 membros, o contágio possa se espalhar para outros estados da UE com grandes déficits públicos, incluindo Espanha, Portugal e Irlanda, com especuladores financeiros mirando essas economias, e todo o projeto do Euro possa se despedaçar.

Os patrões da UE também temem que se não agirem para “ajudar” a economia grega, e deixar isso para os brutais cortes de austeridade do PASOK, assim como deixar a economia grega continuar a afundar, isso poderia desencadear explosões sociais muito maiores, movimentos sindicais e lutas de classe que podem se espalhar como fogo para outras economias em crise e, em geral, para toda a Europa.

Os detalhes do “pacote de resgate” da UE ainda serão vistos, mas está claro pelas declarações de Van Rompuy de que ele virá com impiedosas “condições rigorosas”, assegurando que o governo do PASOK não desvie dos seus planos de austeridade. A chanceler alemã, Angela Merkel, acrescentou que a Grécia “não será deixada por sua própria conta, mas há regras e essas regras devem ser obedecidas”.

Ficará claro para a classe trabalhadora e a juventude da Grécia que as instituições da UE não fornecerão uma saída aos cortes selvagens. De fato, a raiva e animosidade contra o establishment da UE provavelmente crescerá, à medida que as instituições dos patrões exija os ataques mais atrozes sobre o povo grego.

Os apoiadores do Xekinima chamam por uma resposta internacionalista da classe trabalhadora na Grécia, ligando-a com trabalhadores no resto da Europa que enfrentam ataques e sofrimento similares. O Xekinima luta contra a UE dos capitalistas e por uma Europa socialista.

Para desenvolver o movimento contra o governo do PASOK e os ditames do clube dos patrões da UE, o Xekinima chama a ação sindical que parta das greves parciais para greves gerais de 24 horas e 48 horas, de todos os trabalhadores públicos e privados. Os planos para essas ações devem ser coordenados e desenvolvidos em nível local, regional e nacional. O partido governante, PASOK, apesar de culpar todos, exceto ele mesmo pelos ataques aos trabalhadores, não mostrará uma saída.

Uma das tarefas chaves para os socialistas na Grécia é a luta contra as táticas divisionistas de setores da esquerda na Grécia, especialmente o PC, e de lutar por uma frente única da esquerda, fundamentalmente o PC e o SYRIZA, para formar uma poderosa resistência aos ataques sociais.

Isso precisa estar ligado a corajosas políticas socialistas para parar os ataques, e pelo planejamento e gestão democrática da economia para servir aos trabalhadores, pobres e jovens – não os lucros – e para construir uma sociedade socialista.

O Xekinima chama pela construção de uma esquerda de massas, internacionalista e revolucionária na Grécia e por um governo dos trabalhadores com audaciosas políticas socialistas, para acabar com a crise e transformar os padrões de vida dos trabalhadores e da juventude.

Artigo originalmente publicado no site do LSR

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