SOBRE O ÓCIO...

Gustavo Buttes

Dentre as diversas acepções que a palavra “ócio” pode adquirir, dado seu contexto semântico ou sintático em nossa boa e velha Língua Portuguesa, chama-me a atenção aquela que diz respeito à mandriice, à preguiça, que advém não de sua origem latina, mas de seu uso histórico aqui na terra brasilis. Vale lembrar, antes, que “ócio” não tem em sua etimologia uma conotação negativa, pejorativa, como a que usamos aqui no Brasil. Ócio refere-se a descanso, repouso, lazer, merecidos, que todo aquele que trabalha deve usufruir.

Mas voltemos ao Brasil. Desde nosso período colonial, os índios foram preteridos pelos colonizadores para o trabalho na lavoura, intensivo e compulsório, devido a alguns motivos, entre eles o ócio. O português, dentro de sua lógica pré-capitalista, não entendia como aqueles que aqui moravam podiam viver sem acumular, apenas usufruindo do que a natureza lhes disponibilizava. Parecia a eles que a civilização não haveria de cruzar os limites da Península Ibérica, e a solução seria explorar para fins econômicos e imperialistas aqueles de além do Cabo do Bojador, da Boa Esperança, do outro lado do Atlântico. Após constatarem a inaptidão indígena para o trabalho escravo, recorreram à importação de negros africanos, mais mansos e incapazes de fugirem mata adentro. Lembre-se que a Mata Atlântica era intocada até então; os incivilizados nativos brasileiros conseguiram mantê-la intacta por séculos!

Após séculos de escravidão negra, e de miscigenação das raças que para cá confluíram, chegamos à segunda metade do século XIX, contexto em que a instituição do Escravismo sofria ataques por todos os lados, e a elite burguesa de plantadores de açúcar e café permanecia irredutível quanto à viabilidade social de se alforriar de uma só vez toda aquela massa informe de negros, mulatos, mestiços, caboclos, que vendiam seu sangue e o de suas famílias para conseguirem sobreviver. Paralelamente, seguiam-se fugas em massa, as Armas da Coroa negavam-se a caçar negros em quilombos, o movimento abolicionista, de Joaquim Nabuco e outros, surgia e ganhava projeção, profissionais liberais prestavam solidariedade a uma causa que era nobre dentro de sua doutrina liberal. Nesse contexto, o preconceito racial emerge novamente na elite como artifício para procrastinar a libertação dos cativos. Recorre-se então à imigração de europeus pobres, degradados de suas terras, como tentativa de “embranquecer” o povo brasileiro, já que em algum momento aquela população mestiça tomaria consciência política e passaria a reivindicar o direito que a maioria tem de governar sobre todos. Os discursos na Câmara durante o Segundo Reinado revelam as ficções criadas para justificar a inferioridade da raça negra para o trabalho livre, e mesmo sua indisposição de trabalhar, devido ao amor que teriam pelo ócio, uma vez alcançada a liberdade. A elite levantava sempre os riscos de subversão da ordem frente a uma abolição sem contrapartidas, buscando a manutenção de sua supremacia política e sobre o aparelho estatal.

O ócio, assim, atravessou os séculos de nossa história, adquirindo um sentido pejorativo, sempre associado à grande massa da população, negros, índios, camponeses livres e sertanejos que não tinham nada para oferecer ao engrandecimento da Nação, na visão de uma minoria que buscava a todo custo a manutenção do poder. Chegamos, desta forma, ao século XXI e percebemos que essa consciência de inferioridade e menosprezo para com os menos favorecidos socialmente continua abundante dentro de círculos elitistas. Os descalabros de políticos mal-intencionados, que se apropriam daquilo que é público e confundem propositadamente o público com o privado, revela como uma minoria crê-se detentora do aparelho estatal, amparada pela ineficiência do Poder Judiciário e por leis criadas por esses mesmos políticos. O modelo do Estado liberal importado pelo Brasil dos países europeus revelou-se incapaz de atender as necessidades mais básicas da população brasileira, e depois de 500 anos de colonização e exploração, ainda temos um país desigual, não-politizado, comandado por coronéis e elites formados em tempos imperiais. É necessário que a população, tida como preguiçosa e inculta, porém imprescindível dentro do modelo liberal, na medida em que seus impostos sustentam os privilégios de uma minoria, conscientize-se. Somente pela via da formação política o povo pode transformar o Brasil em um República verdadeira, onde a maioria governa sobre todos e as minorias têm seus direitos fundamentais garantidos pelo Estado de direito. Mãos à obra!

1 comment to SOBRE O ÓCIO…

  • Matheus Lamper

    Ótimo artigo! Bela análise histórica do Brasil (as professoras “Cecilia” ficariam orgulhosas)! E como opinião é gratis, cá está a minha.
    Fato é que o povo brasileiro prefere a inatividade do que a “mão à obra”. Hoje, o sentimento de “insatisfação” ocorre quando algo ou alguém “fere” com nosso direito de “inatividade”, ao invés de ser algo que fere com o direito humano de dignidade. Reclamamos e criticamos, mas não mexemos uma palha.
    (algo que deixaria o anarquista Bakunin pirado na batatinha).
    Não sei se por “Ócio” ou “Preguiça”, mas esperamos que alguém faça por nós. Eles que gritem e protestem, e que não faça muito barulho, senão criticamos esses também.
    Me desculpem as esferas politicas, mas obter o poder do Estado não serve para transformar a sociedade. Pois esse Poder, algo tão desejado e almejado, sejam exercidos por minorias ou maiorias, é falho desde que Estado é Estado. Interesses, perdas e ganhos, alianças, e quando se vê, já era o bem-estar comum, pois o que vale é a manutenção do poder!
    Esse poder não transforma, não serve. A fonte de transformação desse sentimento de ócio ou preguiça se chama CARIDADE. Ela independe de cultos ou incultos, raça ou credo, minorias ou maiorias. Quando estendermos a mão ao necessitado, valorizando sua dignidade como criatura, reconhecendo sua igualdade perante todos, e servindo como apoio para ele se (re)erguer, e continuar até que todos estejam assim, transformaremos a sociedade do ócio. Esse é o verdadeiro poder. Mãos à obra!

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